BNDigital – DOSSIÊ – Guerra do Paraguai

A Guerra do Paraguai

guerra

Ricardo Salles
Professor Adjunto da Faculdade de Formação de Professores da UERJ
Professor Adjunto da Escola de História da UNI-RIO

O Império do Brasil nasceu com a pretensão de estender seu domínio até as margens do Rio da Prata. Derrotado nesta intenção, quando teve que aceitar a independência da província Cisplatina, que deu origem à república do Uruguai, não abandonou a pretensão de ser a força hegemônica na região. Visava abrir a bacia do Prata à livre navegação, fato que lhe garantiria melhor comunicação com suas províncias do Centro-Oeste, Mato Grosso e Goiás, e impedir a formação de um poderoso Estado na região que viesse a unificar o antigo Vice-Reino do Prata. A partir de 1851, o Império passou a atuar ativamente na região do Prata quando, aliado a Justo José Urquiza, caudilho das províncias argentinas de Entre Ríos e Corrientes, derrotou Juan Manoel Rosas, governante de Buenos Aires.

O Paraguai se mantivera em relativo isolamento sob a ditadura de José Gaspar de Francia. Com sua morte e ascensão de Carlos Antonio López ao poder, o país, foi, aos poucos, se abrindo ao comércio exterior e buscando resolver suas pendências com seus vizinhos. Em relação à Argentina, era a própria independência do país que estava em jogo, uma vez que não era reconhecida por Buenos Aires. No que diz respeito ao Brasil, a questão girava em torno da abertura do rio Paraguai à livre navegação e à disputa de territórios fronteiriços com a província do Mato Grosso. Até a década de 1860, os paraguaios, habilmente, jogaram com as rivalidades entre o Império e a Argentina, contando com certo apoio do primeiro, para assegurar seus interesses. Com a subida ao poder de Francisco Solano López, filho de Carlos Antonio, em 1862, o Paraguai mudou sua política passando a interferir mais ativamente nos negócios da região e buscando constituir alianças com facções em luta nos países vizinhos:com o general Urquiza, caudilho das províncias de Entre Ríos e Corrientes e opositor do governo unitarista de Bartolomeu Mitre em Buenos Aires, e com o governo blanco do Uruguai.

Os blancos uruguaios, apoiados pelo Paraguai, resistiam às pressões brasileiras no sentido de indenizar presumidas perdas de estancieiros riograndenses que argumentavam que tinham seu gado roubado por uruguaios. Os conflitos entre os estancieiros gaúchos e as autoridades uruguaias já vinham de longe. Donos de terra no Brasil e no Uruguai, os criadores riograndenses queriam que o governo daquele país coibisse a fuga de escravos do Rio Grande para o Uruguai e mesmo que providenciasse sua devolução para seus antigos proprietários. Queixavam-se ainda de perseguições sofridas no país vizinho. Interesses brasileiros também dominavam as finanças uruguaias. O governo imperial apoiava fortemente estes interesses privados e buscava garantir sua preeminência política em apoio aos colorados de Venâncio Flores que se opunham ao governo. Em fins de 1864, tropas imperiais invadiram o Uruguai.

Solano López, acreditando no poderio de seu exército, com um contingente mobilizado numeroso mas mal equipado, e superestimando as dissensões internas na Argentina e no Brasil, após advertir que não admitiria a interferência brasileira, invadiu a província do Mato Grosso. Em seguida, pediu permissão à Argentina para que suas tropas pudessem atravessar seu território e, assim, socorrer o Uruguai e invadir o Rio Grande. Diante da negativa do governo Mitre, que, de fato, apoiava a intervenção brasileira contra os blancos uruguaios, invadiu Corrientes, na esperança de contar com o apoio do general Urquiza, que se opunha ao governo mitrista. Suas previsões fracassaram. Brasil, Argentina e Uruguai formaram a Tríplice Aliança entre Brasil, Argentina e Uruguai e, após derrotaram os paraguaios em Uruguaiana, expulsaram suas tropas da Argentina e prepararam a invasão do Paraguai.

Acreditava-se que a guerra seria breve. Não foi. Depois de uma primeira grande batalha campal em Tuiuti, em maio de 1866, quando a fina-flor do exército paraguaio foi destruída, os aliados depararam-se com as fortificações de Humaitá às margens do rio Paraguai, onde permaneceram praticamente inativos por mais de um ano. Enfrentando um inimigo ferrenho em um terreno pantanoso e desconhecido, mostraram-se incapazes de progredir. Em julho de 1867, uma tentativa de assalto às posições paraguaias em Curupaiti resultou em uma sangrenta derrota aliada. Humaitá só seria capturada em agosto do ano seguinte. Nesta altura, a guerra já era conduzida praticamente pelas forças brasileiras. Enfrentando uma forte oposição ao recrutamento e rebeliões armadas, o governo argentino teve que reduzir drasticamente seu contingente na frente de operações. O exército brasileiro, sob o comando de Caxias, tivera que passar por uma forte reestruturação para se adaptar às condições de uma guerra prolongada e de tais proporções.

Os paraguaios, apesar dos enormes sacrifícios e das perdas sofridas, estavam longe do fim e reorganizaram uma nova linha de defesa, com um novo exército, um pouco mais acima, às margens do rio Paraguai. Em dezembro de 1868, após uma série de combates, eles foram novamente derrotados e Assunção foi ocupada pelos brasileiros em janeiro de 1869. López conseguiu fugir e organizar um novo exército, em sua maioria formada por velhos e crianças, no norte do país. Caxias, já com mais de sessenta anos, cansado e considerando que o prosseguimento da guerra era inútil e que somente os argentinos, fornecedores de suprimentos para o exército aliado e, no fundo, a principal ameaça à hegemonia brasileira na região, retirou-se. Assumiu o comando o conde D’Eu, nobre francês marido da Princesa Isabel. Depois de mais uma batalha em Campo Grande, em que perdeu seu último exército de meninos e velhos, em agosto de 1869, Francisco Solano López , acompanhado de um punhado de seguidores, ainda conseguiu evadir-se. Finalmente, em 1o de março de 1870, seu acampamento foi cercado e, após breve mas sangrenta refrega, ele foi morto pelas forças brasileiras que o perseguiam. Com ele, entre metade e 2/3 da população paraguaia haviam sucumbido.

No Brasil, a guerra cobrou um alto tributo de sangue. Um decreto do governo criou os corpos de Voluntários da Pátria e o próprio Imperador, simbolicamente, deixou-se fotografar com o quepe de primeiro Voluntário da Pátria. Pelo decreto, aqueles que acolhessem ao chamado patriótico, uma vez obtida sua baixa, receberiam uma quantia em dinheiro e uma gleba de terra em colônias militares no interior do país. O número de voluntários que, num primeiro momento, se apresentou mostrou-se insuficiente. Logo, as autoridades, depois de lançarem mão do recrutamento dos efetivos disponíveis dos corpos policiais e da Guarda Nacional para formar os corpos de Voluntários da Pátria, passaram a promover o recrutamento no seio das camadas populares. Os recrutas, designados de Voluntários da Pátria, eram, como usual, em sua grande maioria, negros e mestiços livres. Escravos também se apresentaram ou foram recrutados. Muitos fugiam e se alistavam como homens livres, outros eram libertados para a guerra por seus senhores, como substitutos, isto é, no lugar de outra pessoa; em troca de indenização pelo governo; ou ainda como um ato colaboração voluntária para o esforço de guerra, realizado por entidades, como os conventos que possuíam cativos, e até por indivíduos isoladamente. Entre 7 e 10% dos combatentes eram de libertos. Entre 150 e 200 mil homens foram mobilizados para a guerra. Um número elevado de soldados, não menos que 50.000 – alguns estimam em até 100.000 -, não voltaram.

leia mais sobre o dossiê em: http://bndigital.bn.br/dossies/guerra-do-paraguai/

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