Nos 450 anos do Rio de Janeiro, Biblioteca Nacional homenageia o maior cronista da cidade – João do Rio

Retrato de João do Rio. Autor desconhecido. “[...] porque a vaidade obriga um conferente a publicar as conferências com a esperança de que um leitor vale mais que cem ouvintes.”

Retrato de João do Rio. Autor desconhecido.
“[…] porque a vaidade obriga um conferente a publicar as conferências com a esperança de que um leitor vale mais que cem ouvintes.”

Em comemorações do 450º aniversário da “cidade maravilhosa” a Biblioteca Nacional publica três clássicos de João do Rio, um presente especial aos cariocas: a reedição, pela primeira vez, de três livros de João Paulo Emílio Cristóvão dos Santos Coelho Barreto, o João do Rio (1881- 1921), considerado por muitos o mais importante cronista da cidade. São eles Psicologia urbana, de 1911, Os dias passam…, de 1912 e No tempo de Wenceslau…, de 1917, todos reunindo crônicas e conferências do escritor e repórter que é um símbolo da antiga capital federal. As novas edições trazem ainda, além da apresentação de cada título, notas informativas e cadernos de imagens, com fotografias, caricaturas e trechos de jornais da época.

Scenas da vida carioca, por Raul Pederneiras. Rio de Janeiro: Jornal do Brasil, 1924.

Scenas da vida carioca, por Raul Pederneiras. Rio de Janeiro: Jornal do Brasil, 1924.

Um bom motivo para voltar aos escritos de João do Rio é perceber o clima das intensas mudanças de valores e costumes da cidade nas primeiras décadas do século XX, que se refletia na moda, na importância dada aos figurinos, nos relacionamentos, na movimentação das ruas da cidade, por onde circulavam os modernos tílburis e aconteciam os flirts e o coioísmo. Ou, ainda, se deliciar com a análise psicológica de importantes políticos de sua época, um dos temas de No tempo de Wenceslau…

Ilustração da capa de O Malho, por Lobão. 2 jan. 1909. “A gente fina do Rio de Janeiro só pode veranear em lugares que estejam a duas horas do Rio, e em que haja luz elétrica. Por consequência, ou veraneia em Petrópolis, ou no próprio Rio, ali perto na Tijuca, ou mais ali em Copacabana e no Leme.”

Ilustração da capa de O Malho, por Lobão. 2 jan. 1909.
“A gente fina do Rio de Janeiro só pode veranear em lugares que estejam a duas horas do Rio, e em que haja luz elétrica. Por consequência, ou veraneia em Petrópolis, ou no próprio Rio, ali perto na Tijuca, ou mais ali em Copacabana e no Leme.”

As crônicas do jornalista, permeadas de humor e fina observação dos fatos, foram originalmente publicadas em diversos jornais fluminenses, como a Gazeta de Notícias e A Tribuna.  João do Rio ingressou no jornalismo aos 17 anos de idade. Foi repórter, redator, diretor e colaborador em vários periódicos fluminenses, além de fundar O Rio Jornal, A Pátria e Atlântida: mensário artístico, literário e social para Portugal e Brasil. Foi também tradutor, crítico, teatrólogo e membro da Academia Brasileira de Letras. Morreu de infarto em 1921, dentro de um táxi, nas ruas da cidade cuja imagem ajudou a construir.

Psicologia urbana_capa

Psicologia urbana, apresentado por Iuri Lapa e Lia Jordão do Núcleo de Pesquisa da FBN, reúne quatro conferências feitas por ele na época, além do seu discurso de posse na ABL. As conferências tratam dos “estados d’alma” da cidade, como o amor, o figurino, o flirt e a mentira, falas em que filosofia e mundanismo se misturam, com humor e provocação.

dias-passam_capa

Os dias passam…, com apresentação do historiador e professor Antonio Edmilson Rodrigues, reúne crônicas publicadas em jornais cariocas entre 1907 e 1912. Dividido em quatro partes – Dias de fantasia, Dias de Milagre, Dias de Burla e Dias de Observação –, apresenta um retrato dinâmico do Rio de Janeiro no início do século passado e as transformações da cidade e de seus habitantes.

No tempo de Wenceslau_capa

E No tempo de Wenceslau…, apresentado por Renato Lessa, cientista político e presidente da Fundação Biblioteca Nacional, reúne crônicas sobre temas e personagens que povoaram a política brasileira em boa parte da Primeira República (1889-1930), publicadas, em sua maioria, no jornal carioca O Paiz. As novas edições foram enriquecidas com notas informativas elaboradas pelos pesquisadores Iuri Lapa, Lia Jordão e pela estagiária Renata Aquino.

Careta, n. 341, 2 jan. 1915, p. 8. “O conselheiro Francisco de Paula Rodrigues Alves é um exemplar perfeito da nossa raça. As origens étnicas trouxeram-lhe a resistência física e a fibra moral. Seu pai morreu quase centenário em Guaratinguetá. Era português. Sua mãe ainda vive na idade em que a bondade é a cristalização de uma longa vida de dedicação, de amor e de nobreza. Rodrigues Alves herdou as virtudes íntimas dos seus progenitores. Elas foram a resistência nos embates da vida pública, porque nunca numa trajetória de quase cinquenta anos de vida pública esse homem deixou de ser o querer consciente, a vontade sem violência, o excepcional que cumpre o seu dever, sem tergiversar — o patriota.”

Careta, n. 341, 2 jan. 1915, p. 8.
“O conselheiro Francisco de Paula Rodrigues Alves é um exemplar perfeito da nossa raça. As origens étnicas trouxeram-lhe a resistência física e a fibra moral. Seu pai morreu quase centenário em Guaratinguetá. Era português. Sua mãe ainda vive na idade em que a bondade é a cristalização de uma longa vida de dedicação, de amor e de nobreza. Rodrigues Alves herdou as virtudes íntimas dos seus progenitores. Elas foram a resistência nos embates da vida pública, porque nunca numa trajetória de quase cinquenta anos de vida pública esse homem deixou de ser o querer consciente, a vontade sem violência, o excepcional que cumpre o seu dever, sem tergiversar — o patriota.”

 

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