FBN | Madame Durocher (1809-1893)

No mês de março, dedicado à luta das mulheres por igualdade de condições, a Divisão de Manuscritos abriga a mostra “Mulheres e sociedade: opressão e resistência”. Entre os documentos destaca-se um diagnóstico de Madame Durocher, precursora da presença feminina na Medicina brasileira.

Nascida Marie Josephine Mathilde Durocher, em Paris, Madame Durocher, como se tornou conhecida à época, chegou ao país em agosto de 1816, com apenas sete anos de idade. Veio acompanhada da mãe, Anne Durocher, responsável por abrir uma loja de fazendas francesas na Rua dos Ourives, a qual, ao contrário das outras, conservava-se aberta durante a noite. Madame Durocher trabalhou como caixeira na loja até o falecimento da mãe, em 1829, e se manteve à frente do negócio até a sua falência, em  1832.

Viúva e mãe de dois filhos, Madame Durocher decidiu, então, tornar-se parteira. Em texto denominado “Deve ou não haver parteiras?”, escrito para os Annaes Brasilienses de Medicina (disponível na Hemeroteca Digital Brasileira), afirmou que o medo de tamanha responsabilidade profissional “foi sobrepujado pela garantia de um futuro para meus filhos, e pela esperança de poder sempre sustentar-me na altura da posição que ia tomar” (1871, p. 299).

O contexto da formação médica no Brasil também passava por mudanças significativas no período. A Fisicatura-mor, órgão de controle dos agentes de cura — como parteiras, sangradores, boticários, entre outros –, havia sido extinta em 1828. A elite médica e acadêmica, portanto, passou a requisitar alguma nova forma de supervisão ao exercício da Medicina. Por isso, em 1832 foi criada uma lei que instituiu o ensino superior para a formação médica. Ele era dividido em três áreas: Medicina, Farmácia e Partos.

No ano seguinte à sanção da lei, a Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro abriu seu primeiro curso de Parteiras. Na inscrição era necessário comprovar o conhecimento da leitura e da escrita, o que dificultava o acesso a muitas mulheres que partejavam, uma vez que escolas públicas para meninas foram criadas apenas a partir de 1827.

Até o final do século XIX, partejar era uma atividade quase exclusivamente praticada por mulheres. Madame Durocher, no entanto, instruída pela mãe e por colégios ingleses e holandeses particulares, naturalizada brasileira, foi a primeira e única mulher a matricular-se no curso de Parteiras da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, em 1834.

Para exercer a profissão, ela adotou um estilo de vestimenta considerado masculinizado na época: saia longa, gravata borboleta, sobrecasaca e meia-cartola de seda preta. O objetivo era ser mais bem vista na sociedade, pois a educação acadêmica em Medicina era um campo dominado por homens. Durocher julgava, portanto, que as vestes mais masculinas transmitiam maior confiança às suas próprias pacientes, além de lhe permitir sair à noite sozinha para atender a trabalhos de parto sem ser vista como prostituta.

Durocher atendia em vários bairros do Rio de Janeiro, a mulheres livres ou escravas. Em 1866, seu nome e prestígio eram tão conceituados que foi nomeada oficial de partos da Casa Imperial. Atendeu ao nascimento de Princesa Leopoldina (1847-1871), filha de D. Pedro II (1825-1891), e, além de realizar partos, também examinava amas-de-leite, dava pareceres em exames legais e de virgindade, cuidava de eclâmpsias e hemorragias e praticava reanimação de recém-nascidos.

Em 1871, foi a primeira mulher a ser admitida como membro da Academia Imperial de Medicina, e a única parteira. Lá, Madame Durocher participou de decisões de políticas públicas de saúde, avaliação de medicamentos e comissões. Também foi a primeira mulher a assinar textos científicos na área de medicina no Brasil, publicados na revista da Academia Imperial de Medicina. Seu ensaio de 1887, “Considerações sobre a clínica obstétrica”, é considerado por pesquisadores o estudo mais completo sobre obstetrícia no Brasil no século XIX. A Divisão de Obras Raras da Biblioteca Nacional possui uma versão encadernada do texto, com dedicatória ao Imperador, pertencente à coleção de sua esposa, Teresa Cristina de Bourbon-Duas Sicílias (1822-1889).

Ao longo de sessenta anos, Madame Durocher realizou mais de cinco mil partos até falecer, em dezembro de 1893, no Rio de Janeiro. Em 1909, a Academia Nacional de Medicina instituiu o Prêmio Madame Durocher, oferecido a trabalhos de excelência em obstetrícia e ginecologia.

O documento de Durocher que integra a mostra da Divisão de Manuscritos é um diagnóstico em que a parteira avalia a possibilidade de aborto natural de uma paciente. Nele afirma que “o orifício inteiramente feichado (sic) não indica disposição a aborto”. A fim de não correr riscos, porém, receita malva e cabeças de dormideira, bem como fumentação – ou seja, massagem com unguento — para o caso de dores. Ao final, assina como “Mm. Durocher”. A Divisão de Manuscritos possui um segundo documento autógrafo de Madame Durocher, sobre tratamento de parturiente com febre.

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  1. Lanchinho da Meia-Noite Says:

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